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Archive for the ‘Histórias’ Category

Prezados leitores,

Essa mensagem se dirige a todos os interessados em saber como fiz para chegar aqui na França, mas especialmente aos meus potenciais calouros. (xD~ Quem faz engenharia na UFRJ entendeu a referência nos dois primeiros parágrafos.)

Como um bom fã de Machado de Assis e das suas sugestões de saltos entre capítulos para os sem paciência, dou as coordenadas para os que estão no processo seletivo agora e não podem perder muito tempo com preâmbulos e precisam da descrição da entrevista com os franceses: pule para o sétimo parágrafo. Caso você venha a ter uma tarde livre em breve, o autor ficaria feliz de sua leitura.

Contarei agora como fui selecionado para ficar dois anos na terra da baguete estudando engenharia. Primeiramente, minha história começa com uma palestra de recepção de calouros na UFRJ que se passou antes que eu tivesse qualquer aula… Com meus pais presentes na cerimônia, ouço uma história de intercâmbio de duplo-diploma na França. Olhei bem para um diretor empolgado falando sobre o assunto e senti que aquela oportunidade poderia ser minha. A partir dali, já sabia que queria vir para cá. Sendo assim, segui a risca o conselho que me deram e que vale para qualquer um que queira ser aprovado nesse processo seletivo: associe as maiores notas possíveis ao máximo de atividades extra-curriculares que você conseguir. Basicamente é isso. É simples, mas não é fácil…

Após isso, devo enfatizar os conselhos práticos sobre a preparação para vir, que nunca podem ser esquecidos: coloque o máximo de aulas de francês que couber no seu horário. Bom… estude francês em casa também que é uma boa. Ah… estude francês vendo e lendo jornal pela internet, vendo filmes, escutando músicas,… Enfim, se puder vir pra França pra estudar francês antes do seu processo seletivo, melhor ainda! (Se você, depois desses conselhos, conseguir fazer sobrar algum tempo, estude álgebra linear porque aqui tudo é com matriz. Tudo.) Digo tudo isso sobre o francês por ter verificado muito rapidamente ao chegar aqui em Nantes que, para as aulas, a língua quase nunca atrapalha, salvo algumas poucas exceções. No entanto, quando se trata de vida cotidiana, de integração com os franceses (e da amizade com os franceses, que não é tão difícil assim de se fazer como se imagina), de ir no mercado, de se comunicar em geral, se você estudou pouco francês, você ainda terá uma barreira a vencer.

Vamos ao que interessa? O meu processo seletivo foi constituído de duas partes: a pré-seleção, que é uma análise de documentos feita pela CRI – Coordenação de Relações Internacionais –, e uma entrevista com cinco professores franceses, um de cada Ecole Centrale. Para a primeira parte, tive que fazer basicamente três coisas: pedir uma carta de recomendação para algum professor da UFRJ, fazer o meu curriculum vitae e escrever uma carta de motivação. Para a recomendação, sem problemas: tive um professor de Física (vale adicionar que o cara é muuuito gente boa!) que me conhecia bem e, por isso, aceitou fazer uma carta pra mim. Melhor conselho para pedir carta de recomendação: alguém que te conheça bem. E só. Para o CV, alguns empecilhos: vi setecentos e trinta e oito currículos antes de começar a escrever o meu. Isso com o objetivo de ver todos os modelos possíveis. No fim das contas, escolhi o primeiro modelo que eu tinha visto… (esperto eu não?!) Já para a carta de motivação foi bem pior… Eu só tinha um modelo de um veterano meu e um arquivo pdf de quinze páginas em francês (na época, só um ano e meio de curso, o que dificultou) explicando sobre como fazer uma carta de motivação. E só! Bom, resumindo: um dia para ler o arquivo e escrever quais as coisas mais importantes sobre como escrevê-la, uma tarde para o brainstorming de ideias de experiências para colocar na carta e, finalmente, uns dois dias no total, para redigir a minha carta por inteiro. É, eu sou um pouco perfeccionista…

Depois de aprovado na pré-seleção, faltava agora a parte mais esperada e mais complicada: a entrevista com os franceses. Você pode escolher, na hora mesmo, fazê-la em francês, em inglês ou esbanjar conhecimento misturando as duas línguas (seria legal se eu já tivesse, na época, um nível de francês pra fazer isso). Caso você opte pela primeira alternativa, sem problema nenhum. Porém, só o faça se tiver certeza de que consegue levar até o fim só em francês (imagino que não deve ser legal ter dificuldades com o francês e apelar para o inglês). Eu já tinha feito a segunda opção há pelo menos seis meses. Por isso, desde que o edital de seleção abriu, eu ficava ensaiando tudo o que eu gostaria de falar na entrevista na minha cabeça em inglês e via todos os tipos possíveis de filme americano só pra melhorar o meu inglês. Toda noite, antes de dormir, eu passava pelo menos uma meia-hora criando mentalmente a checklist que entraria em ação no dia D. Essa checklist continha todos os tópicos que eu tinha que abordar durante a entrevista para que tudo desse certo. Assim, eu ficava treinando no caminho de ida e volta para a faculdade, quando eu almoçava sozinho, com os amigos às vezes,… Lembro até de um amigo que fez uma simulação comigo uma semana antes da entrevista real. Essa é uma boa ideia para vocês também potenciais calouros!

Lembro-me mesmo do final de semana anterior a entrevista, que se passou na segunda-feira dia 18/10/2010. No domingo 17, foi aniversário da minha avó e saímos com toda a família para almoçar. Não podia parar de pensar que no dia seguinte o meu destino seria decidido por cinco pessoas. Começava a imaginar as infinitas possibilidades de futuro e parava. E mais uma vez na minha mente eu dizia: “Vamos para a checklist…”, e eu treinava.

Na noite de domingo, toda a roupa do dia seguinte já estava pronta para ser vestida. Comi bem e sem exageros durante todo o dia para estar em perfeito estado na segunda. Meu pai me disse que me levaria para a entrevista no dia seguinte. Uma preocupação a menos. Não dormi nem cedo nem tarde, mas no horário perfeito para estar descansado no dia seguinte sem ter dormido demais. Na segunda de manhã, toda a casa de pé às 6 para me desejar boa sorte. Daí em diante, eu lembro de cada instante até eu sair da sala de entrevista. Cada rua que eu passava com a mochila no colo me dava angústia. Cada rua que eu via todos os dias no caminho para a UFRJ se faziam novas pois eu nunca as tinha visto daquele jeito: olhos de ansiedade como nunca antes. E eu ia ensinando o percurso para o meu pai.

Cheguei cedo e esperei na ante-sala junto com os outros dezessete pré-selecionados. Todos, de maneira perceptível, suavam frio. Exceto um certo rapaz, que agora está aqui comigo em Nantes, que estava dormindo num sofá longe da ante-sala. É isso mesmo… Quando a responsável da CRI pelas entrevistas fez a chamada após entrar com os cinco franceses na sala (todo mundo suando gelo agora…) e chamou o seu nome, eu tive que falar que ele estava lá, mas dormindo num sofá ali perto…

Quem vai primeiro? Ordem alfabética. A responsável da CRI chama: “Bernardo”. Hora fatídica. Entrei, me sentei e comecei a entrevista. Lembro-me de todas as perguntas até hoje. Sobre a iniciação científica, sobre os eventos científicos que eu fui, sobre como os meus pais estavam sobre eu estar num processo seletivo no qual, se aprovado, eu iria morar dois anos fora de casa, sobre o porque de eu querer estudar aqui, sobre como eu tinha adquirido o meu inglês, sobre como estava o meu francês (nessa hora eu já respondi em francês pra eles não perguntarem outra coisa – essa era a única frase que eu tinha treinado na língua deles), sobre o meu futuro profissional, sobre meu ponto mais forte e o mais fraco, se eu já tinha alguma experiência em morar sozinho,… Muita coisa. Uns bons vinte minutos de entrevista. Pelo menos uma pergunta deles foi em francês, o que poderia me abalar, mas eu entendi sem problemas e respondi em inglês porque já estava condicionado a falar inglês o tempo todo. Então, sem problemas com a língua.

A pergunta que não quer calar: eu consegui preencher a checklist? Sim, eu consegui. Mas foi difícil encaixar tudo que eu queria falar. Eram muitas perguntas e sobre assuntos bastante variados que nem sempre abriam o caminho para o que eu gostaria de abordar exatamente. No entanto, como eu vivi todas as respostas para essas perguntas, não me preparei diretamente para elas. Preparar-se ou não depende do quanto você está certo do que falar caso alguém pergunte algo sobre a sua vida.

No final, saí tranquilo pois consegui mostrar para os entrevistadores quem eu era e o quanto eu tinha me preparado para o intercâmbio. Apesar de eu estar bastante confiante de ser selecionado depois de ter feito a entrevista, sabia que ao menos poderia sair dela com o espírito feliz, sabendo que eles sabiam muito sobre quem eu era, levando em conta que eles falaram comigo durante vinte minutos. E foi exatamente com esse objetivo que eu entrei naquela sala.

Bom, para os meus potenciais calouros, digo que vos escrevo com o forte intuito de vê-los em grande número aqui pelas Centrales no ano que vem. Sabendo que a parte final da seleção, a entrevista com os franceses, se aproxima, resolvi partilhar com vocês tais memórias para vocês encontrarem algumas informações úteis acima. Tenho que dizer também que a entrevistadora representando a Ecole Centrale de Nantes será a mesmo que no ano passado, a Emilie Poirson (creio que ela só não estará na UFC nesse ano). Ela é extremamente legal. Logo, pelo menos com um dos cinco vocês não tem preocupação né.

Ótima entrevista para vocês!

PI única: Se de alguma maneira fosse possível saber como é na realidade o intercâmbio antes de vir para cá, eu teria ficado muito, mas muito chateado se eu não fosse aprovado. O intercâmbio é tudo que se imagina de bom e muito mais.

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Do espetáculo

Todos me olham e isso é certo. O problema é que nem todos me vêem. Apresento-me logo em seguida para fazer-vos refletir. De forma irônica: muito prazer em conhecê-lo, chamo-me céu. Como vos disse o que está sendo um problema, compartilho também que algo está mudado.

Tenho sentido que alguém, em algum lugar dessa esfera redonda e azul a qual protejo há muitos anos, tem me observado com olhos atentos. Após os primeiros dias que senti tal expressão em direção a mim, comecei a mudar meu aspecto e passei a me mostrar mais.

Conversando um pouco com esse olhar, soube que ele estava acostumado a me ver de uma maneira diferente. Para ele, eu aparecia frequentemente coberto por inteiro tal qual um carioca no inverno europeu ou nu como um bebê em seu banho. Duas imagens que eu achava atrair os espectadores. Sim, atraía, mas esse olhar em especial precisaria de mais para que eu prendesse a sua atenção. A partir daí, comecei a trabalhar mais minhas cores. Enquanto antes eu era preguiçoso e, por consequência, praticamente unicolor, agora usava de artifícios únicos para conseguir me fazer notar melhor por tal pessoa.

Assim, comecei a demonstrar que sou o mesmo não importando o olhar que me vê. Observando-me do Rio de Janeiro ou de Nantes, sou o mesmo e é isso que importa. Muitas vezes posso estar mais apagado ou menos colorido, mas o que me caracteriza é muito mais do que isso. Uma identidade não se observa pelo estar de espírito, mas pelo ser de espírito, o que muda tudo. Por isso falo língua portuguesa e não francesa: pois a primeira me dá a capacidade de explicitar tal diferença de ser e de estar, enquanto que a segunda só tem um verbo que contém os dois sentidos.

Prosseguirei com as mudanças inevitáveis. A identidade se manterá.

Sem conectivo entre as duas últimas frases pois, felizmente, tais mudanças em nada se relacionam com minha identidade.

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PI 1: Faz-me bem olhar esse céu todos os dias. Lembra-me que ele conecta a todos, basta observá-lo.

PI 2: Esse céu me faz lembrar de meteorologia. Então, aviso aos navegantes: já estou com frio aqui em Nantes… Isso porque fazem 16ºC. Estou com sérios problemas para quando o inverno chegar. Assusta-me de verdade quando as pessoas começam a falar, fora do contexto da química, de temperaturas começando por “menos”.

PI 3: É… ser carioca é: já estar preocupado procurando roupa térmica para o inverno europeu quando fazem 16ºC…

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Do título

As palavras que constituem o título deste blog não o fazem por acaso. Cada caractere foi selecionado após um longo debate pós-almoço com um, acredito que posso dizer, grande amigo meu. Vale ressaltar que ele foi o primeiro em terras europeias que não só esperou que eu terminasse de comer, como também conversou comigo após a refeição! (Em média, levo 40 minutos para terminar uma refeição francesa inteira: entrada, prato principal, queijo com pão – o pão é detalhe -, e sobremesa. Após esses 40 minutos, há duas opções principais: todos já se foram ou já estão com a mochila nas costas me esperando terminar.)

Para explicar a criação desse nome, devo dizer que a descrição do blog já estava pronta antes do título. Isso porque, após uma aventura ocorrida no último domingo (contarei em detalhes nos próximos posts mas, em resumo, remei numa canoa durante 6 horas e 20 Km), refleti um pouco sobre as grandes e as pequenas impressões que podemos ter de uma situação. Sendo assim, esse dia criou em mim a inspiração necessária para finalmente, como diz Machado, me pôr a pena na mão. (Atualmente, são os dedos no teclado, mas a expressão continua válida.) Logo, era necessário um nome onde estivesse embutida tal ideia. Após uma pequena discussão sobre os objetos que poderiam representar tais diferenças de impressão sobre a vida, chegamos a conclusão que seriam os óculos.

Faltava alguma coisa no nome e isso era claro para nós dois. Daí, ele com a magnífica ideia: “óculos pra ver Nantes passar”. Perfeito. Cinco palavras simples que exprimiam muito sobre mim. Isso só poderia ter saído de quem me conhece bem. Até a minha paixão quase secreta pelas letras estava presente com a referência ao terceiro verso de A Banda, de Chico Buarque. Assim, caso ficasse com tais palavras, ainda ganharia a demonstração do meu amor pela MPB no título do meu blog, além da citação da cidade que será a minha moradia durante os próximos dois anos. Concordamos.

Últimas considerações: “E quanto à pontuação?”, “Letra maiúscula para os ‘óculos’?”, “Não, só ‘Nantes’.”, “Um ponto de interrogação após ‘óculos’?”. Não era necessário. Iluminação praticamente instantânea de meu amigo: “Três pontos antes de tudo.” Estava pronto: “… óculos para ver Nantes passar”. Além de tudo, os três pontos antes de tudo, mostram uma máxima minha, que diz que praticamente nada é independente de educação e de cultura. Logo, há sempre uma história. Mesmo antes de uma frase. Por isso eu a conto.

Enfim, um título para não se pôr defeito. Saímos do refeitório orgulhosos de nós mesmos (meio ridículo, mas é verdade).

Essas foram as grandes impressões. Agora, as pequenas impressões:

PI 1 (Pequena Impressão 1): Para dar os devidos créditos, o nome do amigo é Guilherme Rebello.

PI 2: Antes das ideias que estão no texto, surgiram algumas bastante risíveis, mas estas foram suprimidas para manter a reputação dos dois… OK, já que vocês insistem, eu conto algumas: “Adaptador e máquina fotográfica”, ideia do Rebello de colocar dois objetos pra mostrar as grandes e pequenas impressões… ; “Binóculos + algo”, a razão bizarra pela qual BINóculos surgiu primeiro que óculos eu não sei… ; “Essência e Detalhes”, que era o nome do blog até o momento em que eu falei com o Rebello e ele me disse que esse título era muito Roberto Carlos.

PI 3: Começo o blog com um certo atraso, mas todas as histórias importantes que me aconteceram até o momento serão contadas retroativamente nos próximos posts.

PI 4: Quem quiser, pode ir em https://bernardonantes.wordpress.com/about/ para saber os motivos pelos quais escrevo neste blog. Recomendado também para quem não me conhece.

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